Arrependimento

A Santa Tristeza

Reflexão sobre a santa tristeza que leva ao arrependimento e compaixão, à luz das Escrituras.

Por Ariel Zimbrão10 min de leitura

Imagem de capa: A Santa Tristeza

Parte de: Estudos

A gente costuma associar a tristeza só a algo ruim e, por isso, faz de tudo para fugir dela. Vivemos numa geração que idolatra a alegria sem pausa e o entretenimento, e que enxerga qualquer sinal de tristeza como fracasso espiritual ou emocional. A Bíblia, no entanto, aponta para outra direção: sentir tristeza faz parte de viver num mundo caído, e até os servos mais fiéis de Deus atravessaram dias de alma abatida.

Preciso dizer com clareza: há tristezas que pedem cuidado profissional. Quando ela é constante e profunda, quando se arrasta e trava a vida, muitas vezes o que está ali é um quadro de depressão. Nesses casos, o sábio é buscar ajuda médica, psicológica e pastoral, porque Deus, na Sua graça, também nos abençoa por meio de recursos humanos.

Fora essa realidade, existe ainda uma tristeza comum, aquela que todo mundo encara diante dos desafios da vida: a perda de um familiar, a perda de um emprego, um sonho frustrado, um projeto que não deu certo.

A Bíblia é honesta quanto a isso. Jó viveu uma tristeza tão profunda que chegou a dizer:

Por isso, também a minha alma está profundamente perturbada, e dias de aflição se apoderam de mim. (Jó 30:16)

Perdeu os bens, perdeu os filhos, perdeu a saúde, e teve o coração esmagado pela dor. A Palavra de Deus não esconde as lágrimas nem o luto, e não disfarça o sentimento de desamparo.

Hoje, porém, o foco não é essa tristeza comum da vida. Quero que a gente olhe para um tipo de tristeza que a Bíblia apresenta como santa, saudável e até necessária. Uma tristeza que, em vez de nos afastar de Deus, nos aproxima ainda mais dEle.

Introdução: a tristeza que Deus aprova

A Bíblia distingue com clareza dois tipos de tristeza. Em 2 Coríntios 7:10 lemos:

Porque a tristeza, segundo Deus, produz arrependimento para a salvação, que a ninguém traz pesar; mas a tristeza do mundo produz morte. (NAA)

Existem, portanto, duas tristezas:

  • A tristeza comum, por coisas que deram errado, por infortúnios da vida e etc.
  • A tristeza segundo Deus, que produz arrependimento, transformação de vida e propagação do evangelho.

O que vamos chamar aqui de "santa tristeza" é justamente essa que, "segundo Deus produz arrependimento para a salvação". Ela não nos faz correr de Deus; pelo contrário, nos empurra para Ele. Um coração que endureceria acaba sendo quebrantado. E o fruto dela não é ruína, e sim uma tristeza que constrói.

Podemos organizar essa santa tristeza em dois pontos:

  1. A tristeza do arrependimento.
  2. A tristeza da compaixão.

As duas são obra do Espírito Santo no nosso coração. Ambas nos tiram da indiferença e nos moldam à semelhança de Cristo. Longe de serem um mal a ser evitado, funcionam como instrumentos de Deus na nossa santificação.


1. A tristeza do arrependimento

Textosbase: 2 Coríntios 7:10; Salmo 51:14 (NAA)

A primeira forma de santa tristeza é a tristeza pelo pecado. Ela vai além do simples remorso e da vergonha diante das consequências, porque é a dor profunda de ter ofendido a santidade de Deus. O melhor exemplo disso nas Escrituras é Davi, depois do seu pecado com Bate-Seba e da morte de Urias.

Quando o profeta Natã o confronta, Davi não se defende nem procura desculpa. Ele apenas se quebranta. No Salmo 51 lemos a sua oração:

Compadecete de mim, ó Deus, por tua bondade; apaga as minhas transgressões, segundo a multidão das tuas misericórdias. Lavame completamente da minha iniquidade e purificame do meu pecado. Pois eu conheço as minhas transgressões, e o meu pecado está sempre diante de mim. Pequei contra ti, contra ti somente, e fiz o que é mau diante dos teus olhos, de modo que serás tido por justo no teu falar e puro no teu julgar. (Salmos 51:14).

Note alguns aspectos dessa tristeza:

  • Davi não minimiza o pecado: "o meu pecado está sempre diante de mim".
  • Ele reconhece o alvo principal da sua ofensa: "Pequei contra ti, contra ti somente".
  • Ele se curva diante da justiça de Deus: "de modo que serás tido por justo no teu falar".

Aqui não se trata do medo de perder o trono, a reputação ou o conforto. É a tristeza de quem percebe que feriu a santidade de um Deus perfeito, um Deus que o amou, o ungiu e cuidou dele. No fundo, é a dor de um coração que enfim enxerga o peso do próprio pecado.

É exatamente isso que Paulo chama de tristeza "segundo Deus" em 2 Coríntios 7:10:

Porque a tristeza, segundo Deus, produz arrependimento para a salvação, que a ninguém traz pesar; mas a tristeza do mundo produz morte. (2 Coríntios 7:10)
A tristeza mundana enxerga só as consequências do aqui e agora e, muitas vezes, descamba para o desespero ou para a revolta. A tristeza segundo Deus, por sua vez, olha para a santidade do Senhor e conduz ao arrependimento verdadeiro.

Essa santa tristeza pelo pecado:

  • Nos leva a confessar, não a esconder: "Quem encobre as suas transgressões jamais prosperará, mas o que as confessa e abandona alcançará misericórdia." (Provérbios 28:13).
  • Nos leva a abandonar o pecado, não apenas a lamentálo: arrependimento não é apenas sentir, é mudar de caminho.
  • Nos leva a clamar por um coração novo: "Cria em mim, ó Deus, um coração puro e renova dentro de mim um espírito inabalável." (Salmos 51:10).

Sem essa tristeza, não há conversão genuína, e o pecado acaba tratado como algo leve, negociável. Quando o Espírito Santo abre os nossos olhos, porém, a gente chora não só pelo inferno que merecíamos, mas pelo Deus santo que ferimos.

Essa santa tristeza também nos lembra do preço pago na cruz. Quando entendemos que "Cristo morreu por nós quando ainda éramos pecadores" (Romanos 5:8), o coração se dobra. A gente percebe que cada pecado nosso custou o sangue do Filho de Deus, e essa percepção acende um desejo profundo de largar aquilo que cravou Jesus na cruz.

Essa tristeza, portanto, não é um fim em si mesma. É o caminho pelo qual Deus nos conduz ao consolo do perdão. Depois do choro de Davi vem a restauração, e depois do reconhecimento sincero chega a alegria da salvação: "Restituime a alegria da tua salvação e sustentame com um espírito voluntário." (Salmos 51:12). A santa tristeza abre a porta para a santa alegria.


2. A tristeza da compaixão

Textosbase: Lamentações 2:18; Salmo 69:9; João 11:35; Mateus 23:37; Romanos 12:15; Tiago 1:27 (NAA)

A segunda forma de santa tristeza nasce do amor. É a tristeza de quem olha para o pecado e o sofrimento do outro e não consegue ficar indiferente, a dor de um coração inflamado pelo zelo de Deus e pela compaixão pelos perdidos.

Jeremias é chamado de "profeta chorão", e não por ser fraco: ele chora porque ama profundamente o povo e a glória de Deus. Lamenta a destruição de Jerusalém e a rebeldia de Judá. Em Lamentações 2:18 lemos:

O coração deles clamou ao Senhor. Ó muro da filha de Sião, corram as suas lágrimas como um ribeiro, dia e noite; não se dê descanso a você; não parem as lágrimas dos seus olhos. (NAA)

Em outro momento, ele diz:

Quem dera a minha cabeça se tornasse em águas, e os meus olhos, em fonte de lágrimas! Então eu choraria de dia e de noite pelos mortos da filha do meu povo. (Jeremias 9:1).

Essa tristeza não tem nada de egoísta; é intercessora. Não se resume à dor pelo próprio sofrimento, porque alcança a situação espiritual e física dos outros. Jeremias chora ao ver um povo se afastando de Deus, caminhando para o juízo e dando as costas para a aliança. O coração dele se alinha ao coração de Deus, que não tem prazer na morte do ímpio, "mas em que o ímpio se converta do seu caminho e viva" (Ezequiel 33:11).

Essa mesma santa tristeza aparece de forma perfeita em Cristo. A profecia messiânica diz: "Pois o zelo pela tua casa me consumiu, e as afrontas dos que te insultam caíram sobre mim." (Salmos 69:9). Esse texto é aplicado a Jesus no Novo Testamento, quando Ele purifica o templo (João 2:17). O coração de Cristo é consumido por um zelo santo pela casa de Deus e por tudo o que ela representa: a adoração verdadeira e a glória do Pai. E esse zelo o leva tanto a agir quanto a sofrer.

Em João 11:35, diante do túmulo de Lázaro, lemos: "Jesus chorou." (NAA). O Filho de Deus sabia que ressuscitaria Lázaro e, ainda assim, se comove com a dor de Marta e Maria e com a realidade da morte. Em Mateus 23:37, Jesus lamenta sobre Jerusalém: "Jerusalém, Jerusalém, que mata os profetas e apedreja os que lhe são enviados! Quantas vezes quis eu reunir os seus filhos, como a galinha ajunta seus pintinhos debaixo das asas, mas vocês não quiseram!" (NAA). É a tristeza do amor rejeitado, da graça desprezada, de uma salvação que foi oferecida e acabou recusada.

Essa santa tristeza também é convocada para a vida da igreja. Em Romanos 12:15, Paulo ordena: "Alegremse com os que se alegram e chorem com os que choram." (NAA). O cristão não vive isolado numa bolha de individualismo espiritual. Ele compartilha da dor do outro: caminha junto, abraça, ora e sustenta. Uma tristeza assim é sinal de um coração alcançado pelo amor de Cristo.

Tiago nos lembra que a verdadeira espiritualidade é prática:

A religião pura e sem mácula, para com o nosso Deus e Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações e a si mesmo guardarse incontaminado do mundo. (Tiago 1:27)
. Isso inclui se envolver com a dor real de pessoas reais. A santa tristeza da compaixão nos move em direção ao necessitado e ao enlutado, ao pobre e ao desviado. Ela não fica só no sentimento; se desdobra em serviço, em visita, num abraço, no socorro.

Essa tristeza também nos empurra para a missão. Quando vemos pessoas andando sem Cristo, longe da verdade, o coração não consegue ficar neutro. A gente olha para o mundo como Jesus olhou para as multidões: "Vendo ele as multidões, compadeceuse delas, porque estavam aflitas e exaustas, como ovelhas que não têm pastor." (Mateus 9:36). A santa tristeza da compaixão nos leva a anunciar o evangelho e a orar pelos perdidos, a investir tempo, dons e recursos para que outros conheçam a salvação.

Essa tristeza, portanto, é sinal de vida espiritual. Um coração de pedra permanece indiferente; já o coração de carne, que Deus promete em Ezequiel 36:26, sente a dor do próximo e se entristece com aquilo que entristece o próprio coração de Deus.


não fuja da santa tristeza

O mundo nos ensina a fugir da tristeza a qualquer preço, anestesiando a alma com distrações e prazeres, com toda sorte de superficialidade. A Palavra de Deus, porém, nos chama justamente a não fugir da santa tristeza. Precisamos da tristeza do arrependimento para sermos quebrantados e transformados, e da tristeza da compaixão para amar como Cristo ama.

Essa tristeza não é um fim; é um caminho. Um caminho que passa pela cruz e termina na glória. Paulo nos lembra:

Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós um eterno peso de glória, acima de toda comparação. (2 Coríntios 4:17)
As lágrimas deste tempo não são desperdiçadas quando a gente as entrega nas mãos de Deus. Ele usa as nossas dores para nos conformar à imagem do Seu Filho.

E a promessa final é gloriosa:

Ele enxugará dos olhos deles toda lágrima, e não haverá mais morte, nem luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas passaram. (Apocalipse 21:4)
. O mesmo Deus que hoje nos deixa passar pela santa tristeza é aquele que, um dia, vai enxugar de vez todas as lágrimas.

Até lá, não endureça o coração quando o Espírito Santo te entristecer por causa do pecado. Não fuja quando Ele te levar a chorar pelos perdidos e pelos que sofrem. Recebe a santa tristeza como sinal de que Deus está trabalhando em você. E não esquece: "O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã." (Salmos 30:5).

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