Soberania de Deus
Deus criou o mal?
Reflexão sobre a origem do mal à luz das Escrituras e a soberania de Deus.

Parte de: Estudos
Algumas perguntas nascem mais da dor do que da curiosidade. "Se Deus é bom, por que existe o mal? Se Ele é todopoderoso, será que Ele mesmo criou o mal?" Isso vai muito além da filosofia. São perguntas que a gente faz diante do luto, da injustiça, da guerra, do abuso. E, para quem crê em Jesus, responder com honestidade significa voltar ao Sola Scriptura: o que a Bíblia diz?
Tudo o que Deus criou é bom
A Bíblia começa com uma afirmação sem rodeios: Deus é o Criador de todas as coisas, e tudo o que Ele faz é bom.
Em Gênesis 1, após cada ato criador, lemos: "E Deus viu que ficou bom." (Gênesis 1:10, 12, 18, 21, 25 NVI). E, ao final, a Palavra declara:
"Deus viu tudo o que havia feito, e tudo havia ficado muito bom." (Gênesis 1:31, NVI)
Se tudo o que Deus criou é "muito bom", o mal não pode ser uma "coisa" positiva saída das mãos dele, como se fosse mais um elemento da criação, ao lado da luz, da água, das estrelas. Deus é luz (1 João 1:5) e "nele não há treva alguma" (NVI). Ele é "bom e o seu amor dura para sempre" (Salmos 100:5, NVI).
Portanto, pela própria confissão da Escritura, o mal não procede da natureza de Deus, nem foi criado por Ele como algo bom que depois se estragou. Deus é o Sumo Bem, e o mal não nasce dele.
Então de onde vem o mal?
A Bíblia não nos entrega uma enciclopédia filosófica sobre a origem do mal. O que ela mostra é como o mal entra na experiência humana: pela escolha de criaturas livres que se afastam da vontade de Deus.
No Éden, Deus coloca o homem e a mulher num ambiente de plena bondade e se relaciona com eles em amor e confiança. Havia uma única proibição:
"Mas não coma da árvore do conhecimento do bem e do mal, porque no dia em que dela comer, certamente você morrerá." (Gênesis 2:17, NVI)
Quando a serpente engana, o texto deixa claro que a desobediência brota do coração humano seduzido pela mentira:
"Quando a mulher viu que a árvore parecia agradável ao paladar, era atraente aos olhos, e, além disso, desejável para dela se obter discernimento, tomou do seu fruto, comeu e o deu a seu marido, que comeu também." (Gênesis 3:6, NVI)
Não foi Deus quem colocou o mal no coração de Adão e Eva. Diante da tentação, eles escolheram desconfiar da Palavra de Deus e apostar em si mesmos. O mal aparece, então, como rebelião: dar as costas ao Deus que é vida para tentar ser "como Deus" (Gênesis 3:5, NVI).
Tiago, já no Novo Testamento, reforça sem meias palavras que Deus não é fonte do mal moral:
"Quando alguém for tentado, jamais deverá dizer: 'Estou sendo tentado por Deus'; pois Deus não pode ser tentado pelo mal, e a ninguém tenta. Cada um, porém, é tentado pelo próprio mau desejo, sendo por este arrastado e seduzido." (Tiago 1:1314, NVI)
Repare: o mal não brota de Deus. Ele vem do "próprio mau desejo" da criatura. Deus permite e julga, mas não é o autor do pecado.
O mal como oposição a Deus
Se Deus é o Sumo Bem, então o mal ultrapassa a ideia vaga de "algo ruim": ele é, em essência, oposição à vontade de Deus. A Bíblia descreve o pecado como transgressão, como o desvio de um caminho que era bom:
"Todo aquele que pratica o pecado transgride a Lei; de fato, o pecado é a transgressão da Lei." (1 João 3:4, NVI)
Deus deu sua lei para apontar o caminho da vida, não para nos escravizar: "Os teus mandamentos são o meu prazer" (Salmos 119:143, NVI). Quando pecamos, acontece mais do que quebrar uma regra: a gente rompe um relacionamento e rejeita a sabedoria e o amor de Deus.
Por isso, talvez a melhor forma de entender o mal seja vê-lo como falta de conformidade com a vontade de Deus, assim como a escuridão é falta de luz. A luz existe por si mesma; a escuridão é apenas o nome que damos quando a luz é rejeitada ou retirada. Deus é santo, justo e amoroso; o mal é tudo o que nega, distorce ou rejeita esse caráter.
Liberdade, responsabilidade e um Deus que sabia da queda
A Bíblia mostra que Deus deu liberdade ao homem já sabendo que essa liberdade seria mal usada e que a queda viria. Ele "conhece todas as coisas" (1 João 3:20, NVI) e "desde o início faz conhecido o fim" (Isaías 46:10, NVI). Ao criar Adão e Eva, Deus não estava "arriscando" no escuro; sabia que eles poderiam pecar, e que pecariam.
Mesmo assim, Ele lhes deu uma ordem real, uma escolha real:
"Mas não coma da árvore do conhecimento do bem e do mal, porque no dia em que dela comer, certamente você morrerá." (Gênesis 2:17, NVI)
A existência desse mandamento mostra que Deus quis um relacionamento marcado por amor e obediência conscientes. A queda não pega Deus de surpresa, embora também não seja uma programação robótica: ela é o resultado da resposta errada de uma vontade criada, que bem poderia ter permanecido na obediência.
Tiago deixa claro onde o mal nasce:
"Cada um, porém, é tentado pelo próprio mau desejo, sendo por este arrastado e seduzido." (Tiago 1:14, NVI)
Então dá para resumir assim: Deus criou o homem livre e sabia da queda. Não que quisesse o pecado; o que Ele quis, em seu plano eterno, foi criar seres capazes de responder a Ele com amor e fé. O mal surge quando essa liberdade, que é um dom, é voltada contra o próprio Doador. Ainda assim, o Deus que sabia da queda já tinha preparado, em Cristo, o caminho da redenção "antes da criação do mundo" (Efésios 1:4, NVI).
Deus continua soberano em meio ao mal
Dizer que Deus não criou o mal não é o mesmo que dizer que o mal escapou do controle de Deus. A Bíblia mostra um Deus que permanece soberano mesmo quando seres livres escolhem o mal. Um dos relatos mais impressionantes é o de José. Vendido pelos irmãos, traído, preso de forma injusta, ele consegue olhar para trás e dizer:
"Vocês planejaram o mal contra mim, mas Deus o tornou em bem para que hoje fosse preservada a vida de muitos." (Gênesis 50:20, NVI)
Os irmãos de José planejaram o mal, e a responsabilidade é deles. Mas Deus, sem ser o autor do pecado que cometeram, tomou esse mesmo mal e o transformou em parte do seu plano de salvar uma nação inteira da fome.
O ponto mais alto dessa verdade é a cruz de Cristo. Pedro prega:
"Este homem lhes foi entregue por propósito determinado e pré-conhecimento de Deus; e vocês, com a ajuda de homens perversos, o mataram, pregando-o na cruz." (Atos 2:23, NVI)
A morte de Jesus foi, ao mesmo tempo, fruto do pecado humano ("vocês o mataram") e parte do propósito eterno de Deus ("propósito determinado e préconhecimento de Deus"). Deus não criou o mal da cruz; Ele pegou o pior mal da história e o usou para realizar a maior salvação.
Então, afinal: Deus criou o mal?
À luz da Escritura, podemos responder assim:
- Deus não criou o mal como uma "coisa" ou substância; tudo o que Ele criou é bom. (Gênesis 1:31, NVI)
- O mal entrou no mundo quando criaturas livres se afastaram da vontade de Deus, escolhendo a rebelião em vez da obediência. (Gênesis 3:6; Tiago 1:1314, NVI)
- O mal é, em essência, oposição a Deus, transgressão da sua lei, ausência de conformidade com o Seu caráter santo. (1 João 3:4, NVI)
- Deus continua soberano: Ele permite, limita e, muitas vezes, transforma o mal em cenário para o seu bem maior, como na história de José e, de forma suprema, na cruz de Cristo. (Gênesis 50:20; Atos 2:23, NVI)
Não temos todas as respostas para o mistério do mal, mas temos uma certeza firme: Deus não é o autor do pecado, e não ficou distante do nosso sofrimento. Em Jesus, o próprio Deus entrou na nossa história marcada pelo mal, carregou o nosso pecado na cruz e nos oferece um recomeço:
"Ele mesmo levou em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro, a fim de que morrêssemos para os pecados e vivêssemos para a justiça; por suas feridas vocês foram curados." (1 Pedro 2:24, NVI)
Diante do mal, a Bíblia não nos chama só a explicar; ela nos chama a confiar. E a confiar num Deus que jamais criou o mal, um Deus que é perfeitamente bom, que sofre conosco e que, em Cristo, já começou a vencer todo mal, até o dia em que "não haverá mais morte, nem tristeza, nem choro, nem dor" (Apocalipse 21:4, NVI).
Ariel Zimbrão

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