Soberania de Deus
Doutrina do Mistério
O que fazer quando eu não entendo?

Texto-base: Deuteronômio 29.29 (NVI) | Textos de apoio: Gênesis 3.5; Deuteronômio 4.2; Jó 38.4; 42.3; Salmo 73.16–17; Salmo 131.1; Isaías 55.8–9; Marcos 9.24; Romanos 11.33–36; 1 Coríntios 13.12; Gálatas 1.8; Colossenses 2.8; 1 Timóteo 6.16
No fim de um capítulo cheio de advertências, Moisés escreve uma frase que quase todo mundo passa por cima, e que devia nos fazer parar:
"As coisas encobertas pertencem ao Senhor, o nosso Deus, mas as reveladas pertencem a nós e aos nossos filhos para sempre, para que sigamos todas as palavras desta lei." (Deuteronômio 29.29, NVI)
Ali existe uma linha traçada, e ela parte a realidade em duas. De um lado fica o que Deus escondeu, que é só dele. Do outro, o que Deus revelou, que é nosso e dos nossos filhos. Boa parte da paz de um cristão depende de saber em qual desses lados ele está pisando. É que existem coisas sobre Deus que a gente não entende, nem vai entender deste lado da eternidade: como a Trindade funciona por dentro, como Ele enxerga passado, presente e futuro de uma vez só. E, junto com isso, vêm as nossas próprias dúvidas, aquelas perguntas que a gente tem medo de dizer em voz alta. Este texto é sobre o que fazer com tudo o que fica do lado encoberto da linha.
Um Deus maior do que a nossa mente
O primeiro passo humilha e liberta na mesma medida. Deus é maior do que a nossa mente, e sempre vai ser. Isso não vem de confusão da parte dele; vem de Ele ser infinito e nós, finitos. O oceano não cabe num copo, e ninguém culpa o oceano por isso.
"Pois os meus pensamentos não são os pensamentos de vocês, nem os seus caminhos são os meus caminhos", declara o Senhor. "Assim como os céus são mais altos do que a terra, também os meus caminhos são mais altos do que os seus caminhos, e os meus pensamentos, mais altos do que os seus pensamentos." (Isaías 55.8–9, NVI)
Paulo gasta três capítulos tentando explicar os planos de Deus para Israel e, no fim, não fecha a conta com nenhuma fórmula. Termina de joelhos:
"Ó profundidade da riqueza da sabedoria e do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos e inescrutáveis os seus caminhos! 'Quem conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi seu conselheiro?' 'Quem primeiro lhe deu, para que ele o recompense?' Pois dele, por ele e para ele são todas as coisas. A ele seja a glória para sempre! Amém." (Romanos 11.33–36, NVI)
A teologia tem um nome antigo para isso: Deus é incompreensível. Não que a gente não saiba nada a respeito dele; é que nunca alcançamos o fim dele. O conhecimento que Deus tem de si mesmo é perfeito e completo. O nosso conhecimento dele é verdadeiro também, só que sempre do nosso tamanho. Funciona como um pai conversando com um filho pequeno: ele abaixa as palavras e escolhe termos que a criança acompanha, senão nada caberia ali. O que a Palavra nos ensina sobre Deus é verdade, sim. Só que é a verdade que Ele desceu para nos entregar, e não a medida inteira daquilo que Ele é.
"o único que é imortal e habita em luz inacessível, a quem ninguém viu nem pode ver. A ele sejam honra e poder para sempre. Amém." (1 Timóteo 6.16, NVI)
A linha que Deus mesmo traçou
Volte ao versículo de Moisés, porque ele faz mais do que apontar o mistério: ele coloca o mistério em ordem. São dois territórios, cada um com o seu dono. O que está encoberto pertence ao Senhor; o que foi revelado pertence a nós. E repare no fecho da frase, essa parte que quase ninguém lê até o fim: "para que sigamos todas as palavras desta lei".
Deus não revelou o que revelou para matar a nossa curiosidade. A revelação veio para que a gente vivesse com Ele, andasse com Ele e fosse salvo. E o que Ele nos deu dá conta de tudo isso. Do lado de cá da linha não falta nada do que se precisa para conhecer a Deus de verdade e caminhar com Ele até o fim. A revelação não é sobra de um livro maior que ficou guardado com Ele; é exatamente aquilo de que precisamos, entregue na medida em que a gente consegue carregar.
E o que Ele escondeu, escondeu de propósito. Isso muda tudo. O lado encoberto da linha não é um defeito da Bíblia, como se tivessem arrancado uma página antes de ela chegar às nossas mãos. É a discrição de um Pai que entrega ao filho o que o filho consegue segurar e guarda o resto justamente porque ama. Quando esbarro na parede do que não me foi revelado, não tropecei num erro. Encontrei um limite que o próprio Deus pôs ali, pensando no meu bem.
Onde a Bíblia se cala, a curiosidade precisa parar
Agora vem a parte difícil, a que a gente entende na teoria e derrapa na prática. Diante de um mistério, o coração quer resolver na hora. Quer tapar o vazio com alguma explicação, qualquer uma que seja, porque ficar sem saber incomoda demais. É justamente aí que precisamos aprender a parar.
Pense nas perguntas mais pesadas. Como três pessoas são um só Deus, sem virarem três deuses e sem se dissolverem numa pessoa só? Como Deus enxerga passado, presente e futuro ao mesmo tempo, sem que o tempo o arraste como arrasta a gente? Como a escolha de Deus e a nossa vontade cabem no mesmo lugar, sem que uma anule a outra? Em cada um desses pontos a Bíblia fala o suficiente para dizermos o que é verdade, e se cala sobre o como aquilo funciona por dentro. Podemos, e devemos, confessar que Deus é um só em três pessoas, que Ele é soberano sobre tudo, que Ele salva pela graça. O que não dá é fingir que entendemos a engrenagem e sair inventando explicação que a Escritura nunca deu.
Passar por cima do texto não é sinal de fé mais profunda. Quase sempre é o oposto. É o orgulho vestido de teologia, aquela velha vontade de ser como Deus e saber de tudo (Gênesis 3.5), agora dentro de uma conversa religiosa. Há uma sabedoria bem antiga em admitir isso. A gente não precisa ficar, por pura curiosidade, tentando decifrar o que está acima do nosso entendimento. Basta ser discípulo de Cristo e aprender o que Ele mostra na sua Palavra, sem a pressa de avançar mais que isso. Nada disso é preguiça mental; é reverência: enxergar que chega um ponto em que a pergunta certa deixa de ser "por quê?" e passa a ser "quem?".
Foi assim com Jó. Ele encheu o céu de perguntas, e tinha o direito de fazê-las. Deus responde, só que não do jeito que Jó esperava. Em vez de um esquema bem-arrumado para explicar o sofrimento, quem aparece é o próprio Deus, e com outra pergunta na boca:
"Onde você estava quando lancei os alicerces da terra? Responda-me, se é que você sabe tanto." (Jó 38.4, NVI)
E, no fim, Jó não recebe o seu "porquê". Recebe a Deus, e para ele isso já basta:
"Certo é que falei de coisas que eu não entendia, coisas tão maravilhosas que eu não poderia saber." (Jó 42.3, NVI)
Descansar diante do que não foi revelado também é uma forma de adorar. É dizer, junto com o salmista:
"Senhor, o meu coração não é orgulhoso e os meus olhos não são arrogantes. Não me envolvo com coisas grandiosas nem maravilhosas demais para mim." (Salmo 131.1, NVI)
Buscar é certo; inventar a resposta, não
E aqui não pode ficar nenhum mal-entendido sobre o que eu disse até agora. Parar onde a Escritura para não significa proibir a busca, muito pelo contrário. Deus quer que a gente cave fundo na sua Palavra, que pergunte e se esforce para entender o que Ele revelou. O problema nunca está em buscar. Está no que a gente faz quando a busca esbarra numa parede.
Quando a Bíblia não responde, sobram dois caminhos. O primeiro é aquietar a curiosidade e descansar, deixando a resposta nas mãos de Deus. O segundo é correr atrás de material de fora para tapar o buraco, apoiando-se no que a Bíblia não disse. É por essa segunda porta que muita doutrina nasce torta. O erro não esteve na pergunta em si; esteve em ir buscar a resposta em outro lugar, num outro livro, numa profecia, numa experiência forte com cara de sobrenatural. Tudo isso acaba virando fonte de doutrina sem nunca ter estado ancorado na Palavra.
Veja um exemplo bem comum. Há igrejas que distribuem nomes, funções e hierarquias entre os demônios, montando um organograma inteiro do reino das trevas, com quem manda em quem e quem cuida do quê. Só que a Bíblia não diz nada disso. Se a Escritura fica em silêncio, a gente não tem como afirmar como os demônios se relacionam, que patente cada um tem ou que território comanda. Uma doutrina dessas é invenção humana, feita de imaginação e de relato de experiência, não de texto. O certo aqui é justamente o que já vimos: calar a curiosidade e voltar para a Bíblia, dizendo apenas o que ela diz, que os demônios existem, são reais e já foram vencidos na cruz.
O princípio por trás disso vai muito além do exemplo. Levantar doutrina sobre qualquer base que não seja a Escritura é errar o alvo. É colocar outra coisa num lugar que pertence só à Palavra de Deus, o lugar da autoridade final. Não é à toa que Moisés, no mesmo livro de onde tiramos o nosso texto, já havia avisado:
"Nada acrescentem às palavras que eu lhes ordeno e delas nada retirem, mas obedeçam aos mandamentos do Senhor, o seu Deus, que eu lhes ordeno." (Deuteronômio 4.2, NVI)
Paulo vai ainda mais longe. Nem mesmo uma revelação vinda do céu teria autoridade para acrescentar algo ao Evangelho que já foi entregue:
"Mas ainda que nós ou um anjo dos céus pregue um evangelho diferente daquele que lhes pregamos, que seja amaldiçoado!" (Gálatas 1.8, NVI)
"Tenham cuidado para que ninguém os escravize a filosofias vãs e enganosas, que se fundamentam nas tradições humanas e nos princípios elementares deste mundo, e não em Cristo." (Colossenses 2.8, NVI)
Foi exatamente por essa porta que os grandes desvios entraram na história. Roma pôs a tradição e a palavra do papa ao lado da Escritura. Os mórmons acrescentaram o Livro de Mórmon. Os adventistas trouxeram os escritos e as visões de Ellen White. Cada grupo tem a sua fonte paralela, uma segunda voz de autoridade encostada na Bíblia, e é dessa fonte extra que brotam doutrinas que a Bíblia não ensina, quando não são coisas que ela mesma rejeita. Na raiz, o erro é sempre o mesmo: ninguém deixou de buscar; foram buscar a resposta fora do único lugar onde Deus prometeu falar com autoridade.
Por isso a disciplina anda em duas direções. Onde a Escritura fala, a gente escuta e obedece, por mais difícil que seja engolir. E onde a Escritura se cala, a gente não sai importando resposta de fora só para tapar o buraco. Recusar uma resposta que não veio da Palavra de Deus não fecha a mente de ninguém; protege a única fonte que nunca engana.
Deus não se assusta com as suas dúvidas
Agora quero falar diretamente com quem carrega dúvidas e ainda sente medo por causa delas. Deus não se assusta com a sua dúvida. A Bíblia está cheia de gente que duvidou em voz alta, e Ele não fulminou ninguém por isso. Asafe olhou para a vida tranquila dos ímpios e quase perdeu o chão. Ele não fingiu que estava tudo bem; levou a dúvida para o lugar certo:
"Quando tentei entender tudo isso, achei muito difícil para mim, até que entrei no santuário de Deus, e então compreendi o destino dos ímpios." (Salmo 73.16–17, NVI)
Repare no caminho que Asafe fez. Ele não resolveu a dúvida sozinho, remoendo tudo dentro da própria cabeça. Levou aquilo para a presença de Deus, para a Palavra, e foi ali que as coisas clarearam. O mesmo aconteceu com aquele pai aflito que chegou a Jesus sem conseguir crer direito e soltou a frase mais honesta do Evangelho:
"Creio, ajuda-me a vencer a minha incredulidade!" (Marcos 9.24, NVI)
Aquele homem não escondeu a dúvida de Jesus. Confessou a fé que tinha e também a incredulidade, e se aproximou carregando as duas coisas ao mesmo tempo. Jesus não o repreendeu. Curou o filho dele.
Só que aqui a gente precisa ser exato, porque nem toda dúvida caminha para o mesmo lado. Existe a dúvida que busca e existe a dúvida que exige. A que busca corre para a Escritura atrás da resposta onde Deus a deixou e, quando não acha, se aquieta e confia assim mesmo. Já a que exige corre para longe, põe Deus no banco dos réus e cobra que Ele preste contas antes de merecer a nossa fé. No primeiro caso, é um filho perguntando ao Pai; no segundo, é a criatura interrogando o Criador como se fosse maior que Ele. A primeira Deus acolhe de braços abertos; a segunda a gente precisa largar, com arrependimento. O que separa uma da outra é o lugar para onde a pessoa corre com ela, mais do que o tamanho da pergunta em si. Então corra para a Bíblia. E, se ela não abrir a resposta, deixe a pergunta ali mesmo, aos pés de quem sabe.
O mistério que se ajoelha
Ainda falta desfazer uma confusão em cima da própria palavra "mistério". No nosso jeito de falar, mistério é um enigma à espera de solução, o crime que o detetive ainda vai desvendar. Na boca da Bíblia, mistério é outra coisa: é aquilo que estava escondido e que Deus, na hora certa, abriu em Cristo. Quando Paulo chama de mistério a Trindade, a encarnação e a salvação dos gentios, não fala de portas ainda trancadas; fala de coisas escancaradas diante dos nossos olhos em Jesus.
Isso muda a nossa postura diante do que a gente não entende. As maiores questões da fé, como três pessoas serem um só Deus, ou o infinito ter cabido num bebê em Belém, não são contas para fechar numa mesa com papel e caneta. São coisas diante das quais a gente dobra o joelho. Ali o gesto certo não é rabiscar a resposta numa folha; é tirar as sandálias, como quem percebe que está pisando em chão santo. O que a gente não consegue medir ainda assim consegue amar. E amar o que é maior do que nós talvez seja a coisa mais sã que uma criatura chega a fazer.
E ainda há um consolo escondido no fim da linha. O que hoje está do lado encoberto não vai ficar escondido para sempre:
"Agora, pois, vemos apenas um reflexo obscuro, como em espelho; mas, então, veremos face a face. Agora conheço em parte; então, conhecerei plenamente, da mesma forma como sou plenamente conhecido." (1 Coríntios 13.12, NVI)
As perguntas que ficam sem resposta hoje não são uma ameaça pairando sobre a gente. São um encontro já marcado. Um dia Ele volta, e muita coisa que agora é espelho embaçado vai virar rosto diante de rosto. Enquanto esse dia não chega, a fé não precisa entender tudo para confiar. A criança dorme no carro em movimento sem fazer ideia de como o motor funciona, só porque conhece as mãos de quem está ao volante. A gente também pode dormir em paz sobre tudo o que não entende, porque conhece as mãos que seguram todas as coisas.
As coisas encobertas são dele. As reveladas são nossas. E o que nos foi revelado basta, não para encerrar toda pergunta que a gente tem, mas para confiar naquele que guarda todas as respostas.
Ariel Zimbrão



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