Cristo
A Excelência de Cristo
Cristo é a imagem do Deus invisível e a revelação perfeita do Pai; conhecê-lo nas Escrituras é a essência da vida eterna.

Parte de: Sermões
Texto base
“Ele é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação.” — Colossenses 1:15
“E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste.” — João 17:3
Há uma tendência que mora fundo no coração humano: a gente quer Deus, mas não nos termos dele. O homem caído fala de espiritualidade, de transcendência e de divindade sem constrangimento algum; o que lhe pesa é o Deus vivo e verdadeiro, exatamente como Ele se revelou. Desde o princípio, o pecador tenta puxar Deus para perto de si, movido menos por reverência do que pela vontade de domesticá-lo. O que ele quer é um deus que dê para moldar, que os sentidos alcancem e que caiba nas expectativas humanas. Foi isso que Israel fez ao pé do Sinai. Enquanto Moisés estava no monte, o povo exigiu uma representação visível da divindade, e Arão fez um bezerro de ouro. Então disseram: “São estes, ó Israel, os teus deuses, que te tiraram da terra do Egito” (Êxodo 32:4).
O pecado ali não se resumia a adorar “outro deus”, no sentido mais raso da expressão. Estava em querer representar o Deus verdadeiro por meio de uma imagem saída da imaginação humana. Era religião moldada pelo homem, uma tentativa de reduzir a glória do Senhor a uma forma aceitável, visível e sob controle. A idolatria sempre age assim. Não se contenta em substituir Deus; ela o distorce, troca a majestade divina por algo menor, mais fácil de manipular e bem confortável ao coração rebelde (Êxodo 32:4).
Mas o que o homem jamais conseguiria por si mesmo, Deus realizou de forma perfeita no seu Filho. O homem tentou criar uma imagem para representar Deus; Deus nos deu Cristo, que é a imagem do Deus invisível (Colossenses 1:15). Aí está o contraste glorioso do evangelho. De um lado, a imagem falsa que o pecador produz; do outro, a revelação perfeita que vem do próprio Deus. Cristo é a autorrevelação plena e santa de Deus, e não uma projeção religiosa da humanidade.
Hebreus declara que o Filho é “o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser” (Hebreus 1:3). Isto é: conhecer a Cristo é conhecer de verdade a Deus. Conhecê-lo não de modo exaustivo, pois Deus permanece infinito em sua majestade, mas de modo verdadeiro, fiel e salvador. Em Cristo, Deus não foi encolhido para caber em categorias humanas. Ao contrário, deu-se a conhecer de maneira perfeita sem deixar de ser quem é. O Filho revela a glória do Pai sem distorção, sem corrupção e sem falsidade.
É por isso que a excelência de Cristo não pode ser tratada como detalhe doutrinário. Ela está no centro da fé cristã. Cristo é excelente porque nele a gente contempla a glória de Deus e vê a santidade divina sem deformação alguma. Excelente, também, porque nele resplandece tudo o que o coração humano jamais conseguiria inventar: a justiça perfeita, a verdade absoluta, a pureza imaculada, a graça soberana e a majestade do próprio Deus (Colossenses 1:15; Hebreus 1:3).
E essa excelência não é apenas ontológica, como se disséssemos somente que Cristo é divino (o que é gloriosamente verdadeiro). Ela é também moral. O Filho eterno se fez homem e, em sua humanidade perfeita, viveu sem pecado, sem mancha, sem corrupção. A Escritura afirma que fomos resgatados “pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo” (1 Pedro 1:18-19). O valor desse sangue está atado à excelência da sua pessoa. Só um Salvador absolutamente santo poderia oferecer-se por pecadores, e apenas um Cordeiro sem mácula purificaria quem estava manchado.
Isso nos leva ao coração da redenção. Cristo veio para muito mais do que falar de Deus: veio para nos reconciliar com Ele. Hebreus diz que, depois de ter feito a purificação dos pecados, assentou-se à direita da Majestade nas alturas (Hebreus 1:3). O mesmo Cristo que revela o Pai com perfeição é aquele que purifica por completo o seu povo. Quem é a imagem do Deus invisível é também o Cordeiro que tira o pecado. A glória dele não o afasta da cruz; é ela, precisamente, que torna a cruz eficaz. A sua divindade dá valor infinito ao sacrifício, e a sua humanidade santa o qualifica como substituto perfeito.
Aqui a alma encontra descanso. Não fomos purificados por ouro nem por prata, tampouco por mérito humano, esforço religioso ou cerimônia externa. Fomos purificados pelo precioso sangue de Cristo (1 Pedro 1:18-19). O bezerro de ouro era obra de mãos humanas, e levou o povo à corrupção. Cristo veio das mãos do Pai, e conduz o seu povo à purificação, à reconciliação e à vida. O ídolo nasce do pecado e aprofunda a escravidão; Cristo vem em santidade e liberta de verdade.
É aí que a aplicação pastoral se revela profundamente bela. A Bíblia nos ensina que a vida eterna consiste em conhecer a Deus e a Jesus Cristo (João 17:3). O maior bem do homem, então, não está em simplesmente escapar do inferno, nem apenas em entrar no céu como um lugar. Está em conhecer a Deus em Cristo. O paraíso não é, antes de tudo, geográfico; é relacional. A glória da vida eterna é ver, conhecer, amar e desfrutar o Deus triúno por meio do Filho. O céu é céu porque Cristo está lá, e a vida eterna já começa agora, na comunhão verdadeira com Ele (João 17:3).
Se isso é verdade, o crente precisa cultivar uma santa ansiedade por conhecer mais a Cristo. Fome espiritual de verdade, e não mera curiosidade intelectual ou interesse religioso de superfície. O coração regenerado deseja Cristo porque reconhece que nele está a plenitude da revelação de Deus, e também a plenitude da salvação. Quanto mais a gente conhece a Cristo, mais conhece a Deus; e quanto mais conhece a Deus, mais a alma encontra o seu verdadeiro descanso (João 17:3; Colossenses 1:15; Hebreus 1:3).
E aqui entra, sem escapatória, o compromisso com a leitura bíblica. Se Cristo é a revelação perfeita de Deus, e se as Escrituras são o meio inspirado, suficiente e infalível pelo qual Deus testemunha do seu Filho, então ninguém pode dizer que ama profundamente a Cristo enquanto deixa de lado a Palavra de Deus (2 Timóteo 3:16-17). O desejo e a fome por Cristo hão de nos conduzir à Escritura, à Bíblia. E o amor por Cristo deve produzir disciplina espiritual, constância devocional e submissão reverente à verdade revelada.
A Escritura é mais que um acessório da vida cristã. Ela é a única regra infalível de fé e prática, a fonte verdadeira e suficiente da revelação de Deus para a igreja (2 Timóteo 3:16-17). Fora dela, o homem não conhece o Cristo verdadeiro; cria caricaturas dele. Sem a Escritura, logo a gente para de contemplar o Filho como Deus o revelou e começa a esculpir versões mais aceitáveis de Jesus. Um Cristo domesticado e sentimental, impotente diante do pecado, ajustado às sensibilidades da cultura e aos gostos do coração natural. Em outras palavras: toda vez que abandonamos a revelação bíblica, começamos a construir novos bezerros de ouro.
Esse é um alerta necessário para os nossos dias. A idolatria ainda existe, mesmo quando não assume a forma de uma imagem esculpida. Toda vez que a gente tenta encaixar Deus em padrões humanos, repete o espírito de Êxodo 32 (Êxodo 32:4). Quando aceitamos só os atributos de Deus que nos agradam e rejeitamos os que confrontam o nosso orgulho; quando queremos um Cristo que console, mas não reine; que perdoe, mas não exija arrependimento; que salve, mas não governe, o que fazemos é remodelar Deus conforme a nossa imagem. Isso não é devoção verdadeira; é idolatria sofisticada.
Cristo, porém, não pode ser reduzido aos moldes do homem. Ele é o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por Ele (João 14:6). Não cabe ao pecador definir como Deus deve ser conhecido, nem à cultura determinar quem Cristo é. Menos ainda cabe ao coração humano estabelecer os termos da revelação. Deus falou, e falou plenamente no seu Filho (Hebreus 1:3). À igreja não compete atualizar, suavizar ou reinventar Cristo; compete contemplá-lo, anunciá-lo e submeter-se a ele.
Portanto, a igreja carece com mais urgência de contemplação bíblica, não de criatividade religiosa. Novos símbolos para representar Deus não nos servem; o que nos cabe é olhar com fé para o Filho de Deus revelado nas Escrituras. Uma espiritualidade moldada por emoções autônomas também não basta; precisamos de corações rendidos à Palavra. E não precisamos de um deus adaptado à psicologia moderna. Precisamos, sim, do Cristo excelente, santo, glorioso, suficiente e imutável.
Que o Senhor nos livre de fabricar imagens de Deus conforme a imaginação caída. Que Ele destrua os nossos ídolos refinados, os nossos conceitos reduzidos e as nossas projeções religiosas. E que, pela graça, nos conceda olhos para ver a beleza de Cristo, fome para conhecê-lo e perseverança para buscá-lo nas Escrituras. Pois a vida eterna é conhecê-lo, e Cristo é a imagem do Deus invisível. Pois só o Cordeiro sem mácula pode purificar pecadores, e não há glória verdadeira para a alma fora daquele que é o caminho, a verdade e a vida (João 17:3; Colossenses 1:15; João 14:6; 1 Pedro 1:18-19).
Concluímos que:
- Conhecer a Deus em Cristo é o maior bem da alma e a própria essência da vida eterna (João 17:3).
- O desejo sincero por Cristo deve produzir compromisso real com a leitura, meditação e obediência às Escrituras (2 Timóteo 3:16-17).
- Toda tentativa de moldar Deus segundo critérios humanos é idolatria, ainda que use linguagem religiosa (Êxodo 32:4).
- Cristo é a revelação perfeita de Deus e o único mediador pelo qual se chega ao Pai (João 14:6; Hebreus 1:3).
- O sangue de Cristo purifica porque Ele é o Cordeiro sem defeito, santo e perfeitamente suficiente para salvar (1 Pedro 1:18-19).
Oração
Senhor nosso Deus, livra-nos de pensamentos indignos a teu respeito. Guarda-nos de reduzir a tua glória às medidas da nossa mente caída. Concede-nos graça para contemplar a excelência de Cristo, para amar a sua pessoa, descansar no seu sangue e buscar o seu rosto nas Escrituras. Produz em nós fome santa pela tua Palavra, reverência diante da tua verdade e alegria em conhecer aquele que é a imagem do Deus invisível. Em nome de Jesus. Amém.



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