Sola Scriptura

Voltando ao Sola Scriptura

Um chamado ao retorno ao princípio protestante Sola Scriptura, analisando tradições humanas à luz da Bíblia.

Por Ariel Zimbrão19 min de leitura

Imagem de capa: Voltando ao Sola Scriptura

Parte de: Estudos

Na Reforma Protestante, Lutero bradou Sola Scriptura. Com isso, declarou a Escritura Sagrada como a única regra infalível de fé e prática, a norma suprema que julga todas as doutrinas, pregações, comportamentos e tradições humanas. Roma segue outro caminho: confessa a Bíblia, a Tradição e o Magistério como fontes normativas, e daí surgem tantos conflitos entre elas. O protestantismo histórico, por sua vez, sempre sustentou que uma tradição só é legítima enquanto permanece submissa à Palavra de Deus revelada. No evangelicalismo brasileiro de hoje, porém, foram se multiplicando práticas místicas, rituais e costumes sem respaldo bíblico. Pouco a pouco, tradições humanas subiram acima da Escritura e traíram o próprio princípio protestante que deu origem às nossas igrejas. Aqui, essas práticas comuns são expostas e submetidas ao crivo infalível das Escrituras, num esforço de voltar com fidelidade ao grito de Lutero: Sola Scriptura.

TODA TRADIÇÃO SUBMETIDA À PALAVRA DE DEUS

Com o passar do tempo, toda igreja protestante acaba produzindo cultura: modos de vestir, linguagens próprias, estilos musicais, padrões de comportamento que marcam a identidade da comunidade. Isso é natural, se repete ano após ano e, em si, não tem problema algum, contanto que tudo permaneça sob a autoridade absoluta da Escritura. O risco aparece num caso bem específico: quando alguma tradição, seja local, importada de fora ou herdada de gerações passadas, contraria a Palavra de Deus. Nessa hora ela se torna um ídolo disfarçado, um jugo humano que escraviza consciências e invalida o Evangelho.

Jesus Cristo confrontou os fariseus exatamente por isso:

Assim vocês anulam a palavra de Deus por meio da tradição que vocês mesmos transmitiram. E fazem muitas coisas como estas (Marcos 7.13, ).

O apóstolo Paulo ecoa o mesmo alerta em Colossenses 2.8: "Tenham cuidado para que ninguém os escravize a filosofias vãs e enganosas, que se fundamentam nas tradições humanas e nos princípios elementares deste mundo, e não em Cristo" (). Como protestantes, estamos convocados ao mesmo exame radical que Lutero aplicou às indulgências e superstições do seu tempo. Nada escapa ao tribunal supremo da Bíblia. Nossas doutrinas, nossos cultos e nossas práticas têm de se firmar inteiramente na Escritura, sem exceções nem acomodações culturais. Todo desvio nesse ponto é apostasia disfarçada de piedade, e vencê-lo exige firmeza, para então vivermos a verdadeira liberdade que há em Cristo.

PRÁTICAS SEM RESPALDO BÍBLICO NO EVANGELICALISMO BRASILEIRO

A seguir, examinamos com mais detalhe práticas comuns no evangelicalismo brasileiro, sobretudo em círculos pentecostais e neopentecostais. Em cada caso, apontamos a falta de fundamento escriturístico, colocando a prática diante do ensino claro da Palavra de Deus, e chamamos à obediência exclusiva à Escritura como única fonte de verdade.

  1. ÓLEO UNGIDO E OBJETOS CONSAGRADOS

    É muito comum vender ou distribuir "óleo ungido", toalhas, rosas, copos d\'água e outros objetos como se fossem canais automáticos de poder, prosperidade e proteção espiritual. No Antigo Testamento, o óleo consagrava sacerdotes, reis e utensílios do tabernáculo e funcionava como símbolo profético da unção do Messias, o Cristo (Êxodo 30.22-33; Levítico 8.12; 1Samuel 16.13). Aqueles rituais eram sombras cerimoniais próprias da Antiga Aliança, coisas temporais e tipológicas que apontavam para a unção espiritual e permanente do Espírito Santo sobre o povo de Deus na Nova Aliança:

    Ora, é Deus que faz que nós e vocês permaneçamos firmes em Cristo. Ele nos ungiu, nos selou como sua propriedade e pôs o seu Espírito em nossos corações como garantia do que está por vir (2 Coríntios 1.21-22, ).

    No Novo Testamento, a única referência normativa a óleo na vida da igreja aparece em Tiago 5.14-15:

    Entre vocês há alguém que está doente? Que ele mande chamar os presbíteros da igreja para que orem sobre ele e o unjam com óleo em nome do Senhor. A oração feita com fé curará o doente; o Senhor o levantará. E, se houver cometido pecados, ele será perdoado ().

    Repare que ali o óleo é apenas um elemento acessório, dentro de um contexto pastoral de oração em conjunto e fé. Nada sugere magia presa ao objeto, e não se fala em nenhuma "consagração especial" feita por líderes. Transformar o óleo, ou qualquer item material, em amuleto bate de frente com o primeiro mandamento:

    Não terás outros deuses além de mim. Não farás para ti nenhum ídolo, nenhuma imagem de qualquer coisa no céu, na terra ou nas águas debaixo da terra. Não te prostrarás diante deles nem lhes prestarás culto (Êxodo 20.3-5, ),

    e nega, na prática, a suficiência de Cristo, que basta para toda graça:

    Pois em Cristo habita corporalmente toda a plenitude da divindade, e por estarem nele, que é o Cabeça de todo poder e autoridade, vocês receberam a plenitude (Colossenses 2.9-10, ).

    No fundo, essa prática reduz a fé a um comércio espiritual e esquece que o poder está na oração feita segundo a vontade de Deus, jamais em substâncias materiais.

  2. SÓ PODE PREGAR DE TERNO E GRAVATA

    Exigir que o pastor sempre pregue de terno, gravata e sapato social, como se a pregação perdesse a validade sem isso, é tomar uma tradição cultural e elevá-la a doutrina obrigatória. Em parte alguma o Novo Testamento estabelece um código de vestimenta para o púlpito ou para o ministério da Palavra. O que Paulo faz é orientar todos os crentes, homens e mulheres, à modéstia e ao bom senso no vestir:

    Quero, da mesma forma, que as mulheres se vistam modestamente, com decência e descrição, não com tranças nos cabelos e nem com ouro, pérolas ou roupas caras, mas com boas obras, como convém a mulheres que declaram adorar a Deus (1Timóteo 2.9-10, ).

    Pedro reforça o foco no interior:

    Que a beleza de vocês não esteja nos enfeites exteriores, como cabelos trançados e joias de ouro ou roupas finas. Ao contrário, esteja no seu interior, que não perece, beleza demonstrada num espírito dócil e tranquilo, o que é de grande valor para Deus (1Pedro 3.3-4, ).

    O terno, em si, não é o problema; o problema começa quando ele vira norma espiritual. Uma imposição dessas confunde forma cultural com essência espiritual e recai naqueles mandamentos e doutrinas de homens que Paulo condena em Colossenses 2.20-23:

    Já que vocês morreram com Cristo para os princípios elementares deste mundo, por que é que, como se ainda pertencessem a ele, vocês se submetem a regras: "Não manuseie! Não prove! Não toque!"? Todas essas coisas estão destinadas a perecer pelo uso, pois se baseiam em mandamentos e ensinos humanos. Essas regras têm, de fato, aparência de sabedoria, com sua pretensa religiosidade, falsa humildade e severidade para com o corpo, mas não têm valor algum para refrear os impulsos da carne ().

    A força da pregação vem da Palavra de Deus e do Espírito Santo, e jamais veio da roupa do pregador:

    Porque o nosso evangelho não chegou a vocês somente em palavra, mas também em poder, no Espírito Santo e em plena cocção (1 Tessalonicenses 1.5 ).
    Não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê (Romanos 1.16 ).

    Quando se absolutiza uma roupa específica, começa-se a julgar o exterior e esquecer o interior. No fim, isso trai a simplicidade evangélica que marcou a igreja primitiva.

  3. USOS E COSTUMES (CALÇA, MAQUIAGEM, TATUAGEM, BARBA, TV, ETC.)

    Proibições rígidas de calça para mulheres, maquiagem, corte de cabelo, barba, brinco, tatuagem, assistir TV ou ir à praia e ao cinema terminam formando um "código moral" tratado como lei divina imutável. Regras assim nascem de leituras distorcidas e fora de contexto de textos como Deuteronômio 22.5 ou 1 Timóteo 2.9, e ignoram o caráter cultural e cerimonial desses trechos.

    A santidade bíblica é primariamente interna e relacional: fruto do Espírito Santo produzindo um caráter transformado:

    Mas o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio. Contra essas coisas não há lei (Gálatas 5.22-23).

    Paulo resume o chamado à santidade em Colossenses 3.1-17, por exemplo:

    Assim, se vocês foram ressuscitados com Cristo, procurem as coisas que são do alto, onde Cristo está assentado à direita de Deus. Mantenham o pensamento nas coisas do alto, e não nas coisas terrenas. Pois vocês morreram, e agora a sua vida está escondida com Cristo em Deus (v.1-3 ).
    Façam, pois, morrer tudo o que pertence à natureza terrena de vocês: imoralidade sexual, impureza, paixão, desejos maus e a ganância, que é idolatria [...] Livrem-se de toda amargura, ira e indignação, e de toda forma de maldade (trechos combinados de Colossenses 3 e Efésios 4 ).

    Essas proibições humanas

    ...têm, de fato, aparência de sabedoria [...] mas não têm valor algum para refrear os impulsos da carne (Colossenses 2.23 ).

    Elas ainda desviam a atenção de pecados bem mais sérios, como orgulho, avareza e divisões, e ainda por cima escravizam consciências que Cristo já libertou:

    Foi para a liberdade que Cristo nos libertou. Portanto, permaneçam firmes e não se deixem submeter novamente a um jugo de escravidão (Gálatas 5.1 ).
  4. VÉU OBRIGATÓRIO PARA MULHERES NO CULTO

    Impor o véu a toda mulher como condição essencial para orar ou cultuar, sem considerar cultura ou contexto, é absolutizar um símbolo que era cultural, coríntio. Em 1 Coríntios 11.2-16, Paulo está tratando da ordem no culto local e da honra dentro daquela cultura. Ele diz, por exemplo:

    Todo homem que ora ou profetiza com a cabeça coberta desonra a sua cabeça, e toda mulher que ora ou profetiza com a cabeça descoberta desonra a sua cabeça (1 Coríntios 11.4-5 ).

    O princípio eterno naquele texto é ordem, pudor e honra; a forma, o véu em si, era cultural. Quando a gente transforma o véu em exigência universal, perde de vista a diferença entre princípio e símbolo e acaba julgando os irmãos pela aparência externa:

    Meus irmãos, como crentes em nosso glorioso Senhor Jesus Cristo, não façam diferença entre as pessoas, tratando-as com parcialidade (Tiago 2.1 ).

    O que Paulo destaca é o coração submisso e o respeito à ordem que Deus estabeleceu. Nada ali transforma um acessório fixo em teste de ortodoxia.

  5. ORAR NO MONTE COMO "MAIS FORTE" OU ESPECIAL

    Tratar o "orar no monte" como uma oração superior, mais poderosa, quase indispensável para conquistar vitórias espirituais, é sacralizar a geografia, como se certos lugares tivessem poder em si mesmos. Jesus refuta isso diretamente:

    Mas quando você orar, vá para seu quarto, feche a porta e ore a seu Pai, que está em secreto. Então, seu Pai, que vê em secreto, o recompensará (Mateus 6.6 ).

    E ainda, ao conversar com a mulher samaritana:

    Creia em mim, mulher: está próxima a hora em que vocês não adorarão o Pai nem neste monte, nem em Jerusalém. [...] Deus é espírito, e é necessário que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade (João 4.21,24 ).

    Buscar um lugar isolado para falar com Deus na solitude é válido e bíblico. O próprio Jesus fazia isso quando se retirava para orar. Ainda assim, nada disso torna o lugar, por si mesmo, especial ou superior, já que o Espírito Santo habita no crente como num templo vivo:

    Acaso não sabem que o corpo de vocês é santuário do Espírito Santo que habita em vocês, que lhes foi dado por Deus, e que vocês não são de si mesmos? (1Coríntios 6.19 ).

    Orar em qualquer lugar, com fé sincera, basta para sermos ouvidos por Deus.

  6. CLASSIFICAÇÃO DE DEMÔNIOS E "ESPECIALIZAÇÕES"

    Catalogar "demônio do adultério", "demônio da bebida", "demônio da pobreza" ou "demônio da cidade X", cada um com seu mapa espiritual e sua área de atuação, é pura especulação sem base bíblica. A Escritura descreve o mundo espiritual de modo bem mais sóbrio:

    Vocês costumavam viver nele, quando seguiam a presente ordem deste mundo e o príncipe do poder do ar, o espírito que agora está atuando nos que vivem na desobediência (Efésios 2.2).
    Pois a nossa luta não é contra seres humanos, mas contra os poderes e autoridades, contra os dominadores deste mundo de trevas, contra as forças espirituais do mal nas regiões celestiais (Efésios 6.12 ).

    Em nenhum lugar a Bíblia oferece um manual de especializações demoníacas. E o quadro piora quando se usam nomes de entidades de outras religiões nessas classificações, porque isso desperta raiva e repulsa ao Evangelho em pessoas que veem tal postura como ofensiva e desrespeitosa.

    O chamado bíblico é simples e direto:

    Portanto, submetam-se a Deus. Resistam ao Diabo, e ele fugirá de vocês (Tiago 4.7).
    Estejam alertas e vigiem. O Diabo, o inimigo de vocês, anda ao redor como leão, rugindo e procurando a quem possa devorar. Resistam-lhe, permanecendo firmes na fé (1Pedro 5.8-9).
    Usem o capacete da salvação e a espada do Espírito, que é a palavra de Deus (Efésios 6.17 ).

    Em vez de mapas espirituais cheios de fantasia, a Bíblia nos chama a resistir firmes na fé, vestindo a armadura espiritual e mantendo o foco em Cristo.

  7. ATOS JUDAIZANTES (SHOFAR, TALIT, FESTAS)

    Reintroduzir shofar, talit, candelabros ou festas judaicas como se fossem marcas de uma espiritualidade superior é ignorar o cumprimento que já veio no Novo Testamento. Paulo escreve:

    Portanto, não permitam que ninguém os julgue pelo que vocês comem ou bebem, ou com relação a alguma festividade religiosa, ou à celebração das luas novas ou dos dias de sábado. Estas coisas são sombras do que haveria de vir; a realidade, porém, encontra-se em Cristo (Colossenses 2.16-17 ).

    E ainda:

    Mas agora que vocês conhecem a Deus, ou, melhor, são conhecidos por Deus, como é que estão voltando outra vez àqueles princípios elementares, fracos e sem poder? Querem ser escravizados por eles outra vez? Vocês estão guardando dias especiais, meses, ocasiões específicas e anos! (Gálatas 4.9-10).

    A situação se agrava quando deixar de praticar esses rituais judaicos passa a ser visto como pecado ou como sinal de pouca espiritualidade. Na verdade, tais práticas eram tipos cerimoniais que encontraram cumprimento em Jesus:

    A lei traz apenas uma sombra dos benefícios que hão de vir, e não a sua realidade exata (Hebreus 10.1 ).

    Na Nova Aliança, a igreja celebra o senhorio de Cristo pelos meios de graça que Ele mesmo estabeleceu. Reviver sombras antigas e impô-las como normas obrigatórias caminha na direção oposta.

  8. "EU DECLARO", "EU DECRETO" E O SUPÔSTO PODER DA PALAVRA HUMANA

    Frases como "eu declaro prosperidade" ou "eu decreto vitória" atribuem à fala humana um poder criador, como se bastasse verbalizar algo para legislar sobre o céu. Muita gente toma a expressão "a palavra tem poder", ou o texto "tudo o que vocês ligarem na terra terá sido ligado nos céus" (Mateus 18.18 ), arranca do contexto e usa isso para sustentar declarações vazias.

    O poder criador, porém, é exclusivo da palavra de Deus:

    Pela fé entendemos que o universo foi formado pela palavra de Deus, de modo que o que se vê não foi feito do que é visível (Hebreus 11.3 ).
    Assim também ocorre com a palavra que sai da minha boca: ela não voltará para mim vazia, mas fará o que desejo e atingirá o propósito para o qual a eei (Isaías 55.11).

    A oração bíblica é submissa à vontade de Deus:

    Esta é a confiança que temos ao nos aproximarmos de Deus: se pedirmos alguma coisa de acordo com a vontade de Deus, ele nos ouvirá (1João 5.14 ).
    Se for da vontade do Senhor, viveremos e faremos isto ou aquilo (Tiago 4.15 ).

    O crente não vive decretando a própria vontade; ele se curva à vontade do Pai. A ideia de que nossas palavras, sozinhas, criam realidade espiritual não passa de uma repetição de erros místicos antigos, agora vestidos com roupagem evangélica.

  9. ATOS PROFÉTICOS PERFORMÁTICOS

    Práticas como "cavar poços", "marchar no quarteirão", "rasgar contratos no altar" ou "pisar em bonecos" tomam narrativas do Antigo Testamento (como a queda de Jericó ou a vara de Moisés) e as tratam como prescrições universais, confundindo história com norma. A igreja do Novo Testamento avançou por outro caminho: pela Palavra pregada e pela ação do Espírito:

    Assim, a palavra de Deus se espalhava. Em Jerusalém o número de discípulos aumentava muito (Atos 6.7).
    Pois vocês nasceram de novo, não de uma semente perecível, mas imperecível, por meio da palavra de Deus, viva e permanente (1 Pedro 1.23 ).

    Nada disso encontra mandamento no Novo Testamento, e, no fim das contas, esses atos performáticos reduzem o Evangelho a espetáculo. Eles tiram o foco daquilo que Deus determinou como principal meio de graça: a pregação fiel da Palavra:

    Pregue a palavra, esteja preparado a tempo e fora de tempo, repreenda, corrija, exorte com toda paciência e doutrina (2 Timóteo 4.2, ).
  10. CAMPANHAS FINANCEIRAS (FOGUEIRA SANTA, VOTO FORTE)

    Campanhas que prometem milagres em troca de "ofertas de 7 dias" ou "sacrifícios financeiros" transformam a fé numa barganha com Deus. Há quem chegue a dizer que assim "vamos colocar Deus na parede" e "forçá-lo a nos abençoar", uma ideia completamente antibíblica. Textos como Malaquias 3.10 são arrancados do seu contexto histórico, o da aliança com Israel, e assim se ignora o que o Evangelho diz com toda a clareza sobre a graça:

    Pois vocês são salvos pela graça, por meio da fé, e isto não vem de vocês, é dom de Deus; não por obras, para que ninguém se glorie (Efésios 2.8-9 ).

    No Novo Testamento, a contribuição é voluntária e alegre, jamais fruto de manipulação:

    Cada um dê conforme determinou em seu coração, não com pesar ou por obrigação, pois Deus ama quem dá com alegria (2 Coríntios 9.7 ).

    Quando o dinheiro vira chave de bênção, o dízimo e as ofertas terminam virando comércio espiritual, justamente o que Simão, o mágico, tentou fazer:

    Pedro, porém, respondeu: "Pereça com você o seu dinheiro! Você pensou que poderia comprar o dom de Deus com dinheiro" (Atos 8.20 ).
  11. APOSTOLADO COM AUTORIDADE CANÔNICA

    Reivindicar "apóstolos" hoje com a mesma autoridade dos doze ou de Paulo, gente que traz "novas revelações" e "novos mandamentos", é ignorar a natureza única do apostolado bíblico. No sentido estrito, os apóstolos foram o fundamento da igreja:

    Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, tendo Jesus Cristo como pedra angular (Efésios 2.20).

    Em Atos 1.21-22, ao escolher o sucessor de Judas, um dos requisitos era:

    É necessário, pois, que um deles seja conosco testemunha de sua ressurreição.

    O cânon das Escrituras está fechado, como alerta o Apocalipse:

    Declaro a todos que ouvem as palavras da profecia deste livro: se alguém lhes acrescentar algo, Deus lhe acrescentará as pragas descritas neste livro. Se alguém tirar alguma palavra deste livro de profecia, Deus tirará dele sua parte na árvore da vida e na cidade santa, que são descritas neste livro (Apocalipse 22.18-19 ).

    No momento em que abrimos brecha para qualquer um se autodeclarar apóstolo, dizer que viu um anjo e chegar com um "novo mandamento", já estamos pisando num terreno que a própria Bíblia condena. Existe, sim, um sentido legítimo de se falar em "apostolado" hoje: o de missão, missionários enviados a proclamar o Evangelho, porém sem nenhuma autoridade canônica extra.

  12. COBERTURA ESPIRITUAL E PAIS ESPIRITUAIS

    Hierarquias de "cobertura espiritual" ou de "pais na fé" com poder sobre decisões pessoais erguem estruturas piramidais sem base bíblica. O único cabeça da igreja é Cristo:

    Porque o marido é o cabeça da mulher, como também Cristo é o cabeça da igreja, que é o seu corpo, do qual ele é o Salvador (Efésios 5.23 ).
    Ele é a cabeça do corpo, que é a igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a supremacia (Colossenses 1.18).

    Presbíteros e pastores existem para cuidar do rebanho, jamais para exercer domínio sobre ele:

    Obedeçam aos seus líderes e submetam-se à autoridade deles. Eles cuidam de vocês como quem deve prestar contas (Hebreus 13.17).
    Aos presbíteros que há entre vocês [...] pastoreiem o rebanho de Deus que está aos seus cuidados [...], não dominando os que foram confiados a vocês, mas sendo exemplos para o rebanho (1Pedro 5.1-3).

    Quando o título de "pastor" vira uma espécie de status mágico, cria-se uma cultura narcisista e opressora. Ser pastor é um chamado de serviço e sacrifício, bem distante de qualquer ideia de controle absoluto. No fim, todos, pastores e membros, estão debaixo do mesmo Deus e da mesma Bíblia.

  13. NUMEROLOGIA ESPIRITUAL (CORRENTES DE 21 DIAS, 40 NOITES)

    Campanhas de "7 sementes", "21 dias de jejum" ou "40 noites" tratam Deus como se Ele respondesse a fórmulas numéricas. É verdade que a Bíblia usa números com sentido simbólico, como o sete, tantas vezes associado à plenitude. Ainda assim, em momento nenhum ela atribui poder mágico a qualquer número. O agir de Deus é soberano:

    O vento sopra onde quer. Você o escuta, mas não pode dizer de onde vem nem para onde vai. Assim acontece com todos os nascidos do Espírito (João 3.8 ).
    Sabemos que Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam, dos que foram chamados de acordo com o seu propósito (Romanos 8.28 ).

    Reduzir a vida espiritual a correntes numéricas é, no fundo, trocar a confiança na providência de Deus pela confiança em técnicas.

  14. HIPERESCATOLOGIA (TUDO É MARCA DA BESTA)

    Rotular vacinas, chips ou qualquer avanço tecnológico como "marca da besta" é ir muito além do que a Escritura revela. Apocalipse 13.16-17 descreve um cenário específico e simbólico, que não abre espaço para especulações desenfreadas:

    Também obrigou todas as pessoas, pequenas e grandes, ricas e pobres, livres e escravas, a receberem certa marca na mão direita ou na testa, para que ninguém pudesse comprar nem vender, a não ser quem tivesse a marca, que é o nome da besta ou o número do seu nome.

    Muitos medos escatológicos vêm da falta de ensino bíblico sério. Deus mesmo diz:

    O meu povo foi destruído por falta de conhecimento (Oséias 4.6 ).

    Paulo nos orienta a não entrar em alarme:

    Quanto à vinda de nosso Senhor Jesus Cristo e à nossa reunião com ele, rogamos a vocês, irmãos, que não se deixem abalar nem alarmar tão facilmente [...] Não deixem que ninguém os engane de modo algum (2 Tessalonicenses 2.1-3).

    Em vez de enxergar "marca da besta" em tudo, o nosso chamado é viver preparados e firmes em Cristo, aguardando a volta dele com sobriedade e esperança.

CHAMADO AO ARREPENDIMENTO PROTESTANTE

Sola Scriptura é um chamado contínuo ao arrependimento. A tarefa é pesar cada prática à luz da Palavra, guardando o que é bom e recusando as tradições humanas que ofendem as santas Escrituras:

Examinem tudo. Fiquem com o que é bom. Afastem-se de toda forma de mal (1 Tessalonicenses 5.21-22).

Nós, cristãos brasileiros, precisamos fazer essa análise com honestidade diante de Deus e abandonar de vez os misticismos sincréticos que se infiltraram no nosso meio. O caminho passa por voltar à pregação simples e fiel da Palavra, ao uso correto dos sacramentos e a uma disciplina bíblica saudável. Que as igrejas protestantes ecoem Lutero: a Escritura, sozinha, basta para a fé, para a vida e para a glória de Deus.

E se você, que está lendo, é pastor, mestre ou alguém de influência na sua comunidade, essa mudança precisa começar por você mesmo. Seja o primeiro a colocar as suas práticas, as suas tradições e o ministério inteiro diante da Palavra, disposto a abandonar tudo o que não for bíblico. Que a gente possa voltar ao evangelho simples e puro de Cristo, sem adornos humanos, confiando somente na graça de Deus revelada nas Escrituras.

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