Obediência

Misericórdia Quero, e não Sacrifício

Por que Deus recusa o sacrifício quando ele vira desculpa para não obedecer, e o que isso significa para o nosso serviço na igreja e o cuidado com a família.

Por Ariel Zimbrão13 min de leitura

Imagem de capa: Misericórdia Quero, e não Sacrifício

Parte de: Estudos

Textos-base: Oséias 6.6; 1 Samuel 15.22 (NVI) | Textos de apoio: Miquéias 6.8; Mateus 9.13; 12.7; Marcos 7.9–13; Romanos 10.2; Efésios 5.25; 1 Pedro 3.7; Hebreus 10.5–7,25

Há um contraste bem no coração da Bíblia, desses que deveriam fazer a gente parar. O mesmo Deus que mandou oferecer sacrifícios, e que explicou nos mínimos detalhes como devia ser o altar e o que fazer com o sangue da oferta, é quem depois diz ao seu próprio povo que não os quer:

"Pois desejo misericórdia, e não sacrifícios; conhecimento de Deus em vez de holocaustos." (Oséias 6.6, NVI)

Antes de Oséias, foi Samuel quem disse:

"Acaso tem o Senhor tanto prazer em holocaustos e em sacrifícios quanto em que se obedeça à sua palavra? A obediência é melhor do que o sacrifício, e a submissão é melhor do que a gordura de carneiros." (1 Samuel 15.22, NVI)

Como pode Deus recusar aquilo que Ele mesmo mandou fazer? A resposta descobre um dos autoenganos mais comuns do coração religioso. Não é que Deus tenha mudado de ideia sobre o culto. Ele sempre soube separar a forma da religião daquilo que essa forma deveria expressar. E, quando a forma vira jeito de fugir da obediência, Ele a recusa.


Saul e o sacrifício que era desobediência

O caso de Saul mostra isso com clareza. Deus tinha mandado destruir por completo os amalequitas, e Saul obedeceu só pela metade. Poupou o rei Agague e o melhor do gado. Na hora de explicar, o povo veio com uma desculpa de aparência piedosa:

"Os soldados os trouxeram dos amalequitas; eles pouparam o melhor das ovelhas e dos bois para sacrificarem ao Senhor, o teu Deus, mas destruímos totalmente o restante." (1 Samuel 15.15, NVI)

Era uma desculpa religiosa para uma desobediência de verdade. E veja como Samuel responde. Ele não trata o sacrifício de Saul como um bem apenas um pouco menor, um zelo fora de hora. Chama aquilo de pecado:

"Pois a rebeldia é como o pecado da feitiçaria, e a arrogância como o mal da idolatria. Assim como você rejeitou a palavra do Senhor, ele o rejeitou como rei." (1 Samuel 15.23, NVI)

Repare onde Samuel coloca o culto de Saul: no mesmo lugar da feitiçaria e da idolatria. Um sacrifício oferecido justamente para não obedecer passa longe de ser uma adoração morna; é desobediência vestida com a roupa da adoração. O que nasce da recusa em obedecer, Deus não recebe como oferta. Naquele caso, o altar tinha se tornado esconderijo.


Oséias e a lealdade que Deus procura

Oséias aplica o mesmo diagnóstico, agora a um povo inteiro. Israel não tinha abandonado o templo: cumpria os ritos e multiplicava as ofertas, mantendo a fachada da religião de pé. E, mesmo assim, Deus diz que deseja misericórdia, e não sacrifícios (Oséias 6.6).

A palavra traduzida ali por "misericórdia" é mais forte do que um simples sentimento. Ela fala de lealdade, do amor que fica e cumpre a aliança, a fidelidade que Deus tem pelo seu povo e espera ver de volta. O problema de Israel nunca esteve na falta de atividade religiosa. O problema era um culto sem lealdade: mãos ocupadas no altar, e um coração que não andava com Deus nem tratava o próximo com fidelidade. Miquéias diz a mesma coisa com outras palavras:

"Ele mostrou a você, ó homem, o que é bom e o que o Senhor exige: pratique a justiça, ame a fidelidade e ande humildemente com o seu Deus." (Miquéias 6.8, NVI)

Um rito que sobe ao céu com as mãos vazias de obediência não é aceito por Deus.


Jesus e o truque do Corbã

Quando Jesus chega, encontra esse mesmo autoengano, só que agora virado sistema. Duas vezes Ele cita Oséias para confrontar os fariseus, gente cuja vida inteira girava em torno da precisão religiosa e que, por isso mesmo, condenava os famintos e desprezava os pecadores em nome da pureza:

"Vão aprender o que significa isto: 'Desejo misericórdia, não sacrifícios'. Pois eu não vim chamar justos, mas pecadores." (Mateus 9.13, NVI)
"Se vocês soubessem o que significam estas palavras: 'Desejo misericórdia, não sacrifícios', não teriam condenado inocentes." (Mateus 12.7, NVI)

O exemplo mais forte é o do Corbã. A Lei mandava honrar pai e mãe, e isso incluía sustentá-los na velhice. Mas alguém tinha inventado uma saída: bastava declarar os próprios bens como dedicados a Deus, e pronto, o filho ficava livre de ajudar os pais já idosos. A consagração religiosa dos bens virava escudo contra um dever difícil. Jesus não poupa palavras:

"E disse-lhes: 'Vocês estão sempre encontrando uma boa maneira de pôr de lado os mandamentos de Deus, a fim de obedecerem às suas tradições! Pois Moisés disse: 'Honra teu pai e tua mãe' e 'Quem amaldiçoar seu pai ou sua mãe terá que ser executado'. Mas vocês afirmam que se alguém disser a seu pai ou a sua mãe: 'Qualquer ajuda que vocês poderiam receber de mim é Corbã', isto é, uma oferta dedicada a Deus, vocês o desobrigam de qualquer dever para com seu pai ou sua mãe. Assim vocês anulam a palavra de Deus, por meio da tradição que vocês mesmos transmitiram. E fazem muitas coisas como essa.'" (Marcos 7.9–13, NVI)

É o mesmo mecanismo de Saul, só que agora organizado em forma de regra. Uma coisa religiosa, dedicar bens a Deus, sendo usada como desculpa para fugir de uma obediência bem mais cara, que era cuidar dos próprios pais. Tinha cara de devoção, mas era desobediência.


O mecanismo por trás de tudo

Depois que a gente aprende a reconhecer esse padrão, começa a enxergá-lo em todo lugar, inclusive dentro de si mesmo. Funciona assim. Diante de uma obediência difícil e cara, dessas que ninguém vê nem elogia, o coração troca de tarefa. Em vez de fazer o que Deus pediu, faz alguma outra coisa religiosa e sai dali com a sensação de que cumpriu o seu dever.

Saul deixou de obedecer e, no lugar disso, sacrificou. Os fariseus, em vez de sustentar os pais, consagraram bens. Nos dois casos, a atividade religiosa ocupou o lugar da obediência em vez de expressá-la. E o estrago foi ainda maior: aquilo funcionou como anestésico para a consciência, deixando o desobediente se sentir zeloso.

Por isso Paulo pôde dizer de Israel:

"Posso testemunhar que eles têm zelo por Deus, mas o seu zelo não se baseia no conhecimento." (Romanos 10.2, NVI)

A quantidade de esforço religioso não é o que mede a fidelidade. Às vezes, a correria religiosa toda é justamente o sinal de que estamos fugindo. A gente multiplica sacrifícios porque, no fundo, não quer obedecer.


Do altar ao nosso serviço

Aqui a gente precisa fazer uma ligação, porque o sacrifício no Antigo Testamento tinha mais de um sentido, e é fácil confundir os dois.

Um dos sentidos apontava para frente, para Cristo. O sangue do animal cobria o pecado e já anunciava a cruz. Esse sentido Jesus cumpriu e encerrou de uma vez por todas, e não é dele que estamos falando aqui. Nenhum serviço nosso, hoje, repõe a obra da cruz. Nem precisa repor.

Mas o sacrifício tinha também um segundo sentido, e é esse que nos interessa aqui. Ele era um ato de adoração e de trabalho para Deus, algo que a pessoa trazia e oferecia com as próprias mãos e às próprias custas. Custava um animal e custava tempo, sem falar na subida até o templo. Era a parte visível da religião, o serviço que se prestava a Deus.

É esse segundo sentido que segue vivo no meio de nós, só que vestindo outra roupa. Hoje ele aparece no nosso serviço dentro da igreja: as escalas, os ministérios e os projetos, as horas de trabalho voluntário, a presença fiel em cada reunião. É o que fazemos para Deus e o que trazemos até Ele, o lado visível da nossa devoção. E tudo isso é bom. Deus se agrada quando vem de um coração que também obedece.

O ponto é justamente este. Assim como o sacrifício de Saul podia virar desculpa para não obedecer, o nosso serviço corre o mesmo risco. É bom em si mesmo, mas acaba colocado no lugar errado. Quando trocamos a obediência difícil pela atividade religiosa que todo mundo enxerga, estamos repetindo o erro de Saul, só que agora com um crachá de voluntário no lugar do cutelo do sacerdote.


Todas as áreas da vida são chão sagrado

Antes de aplicar isso, a gente precisa desfazer uma divisão falsa. Costumamos imaginar que existem áreas "sagradas" da vida, como a igreja e o culto, e áreas "comuns", como o casamento, o trabalho e o cuidado com a casa e com os pais idosos. E supomos, sem nunca dizer isso em voz alta, que Deus se importa mais com as primeiras.

A Bíblia não conhece essa divisão. O lar é chão sagrado, o trabalho também é, e a vida em comunidade não fica atrás. Deus reina sobre todas essas áreas com a mesma autoridade, e obedecer a Ele no quarto, na oficina ou ao lado da cama de um pai idoso não é nada menos espiritual do que servi-Lo dentro do templo. Nenhuma dessas áreas vale mais que a outra.

O que existe, sim, é uma ordem entre os deveres quando eles parecem brigar entre si. E aqui a gente precisa ser exato. Se, para cumprir uma coisa numa área, eu tenho que desobedecer a Deus em outra, então existe um conflito ali, e uma escolha errada em algum ponto. Deus não se contradiz. Ele não vai me mandar, no altar, fazer aquilo que quebra o seu mandamento dentro de casa. Quando eu sinto que servi-Lo aqui me obriga a pecar ali, um dos dois "deveres" não é o que eu imagino. Ou não é dever de verdade, ou está fora do lugar na fila das minhas obrigações.


Quando servir vira fuga

Pense num casal cristão dedicado. Eles servem na igreja quase todos os dias, entre escalas, reuniões e ministérios. E, no meio de tanta atividade, o casamento vai secando devagar. Os dois não se olham mais, e a conversa e o cuidado um com o outro sumiram. A oração de um pelo outro já morreu faz tempo. Se você perguntar, eles vão responder que estão servindo ao Senhor. Mas a Bíblia é bem clara sobre o dever do marido:

"Maridos, ame cada um a sua mulher, assim como Cristo amou a igreja e entregou-se por ela." (Efésios 5.25, NVI)
"Do mesmo modo vocês, maridos, sejam sábios no convívio com suas mulheres e tratem-nas com honra, como parte mais frágil e co-herdeiras do dom da graça da vida, de forma que não sejam interrompidas as suas orações." (1 Pedro 3.7, NVI)

Se o serviço na igreja está devorando o casamento, esse casal talvez esteja mais perto do erro de Saul do que da obediência de verdade. E a obediência que Deus pede pode ser, bem naquele momento, invisível e até mal vista. Às vezes é deixar de servir numa escala para cuidar do cônjuge, ou ficar em casa numa noite de reunião para reconstruir uma conversa que tinha morrido. Ninguém vai aplaudir, e não vai ter foto nenhuma. Mas o mandamento de cuidar da própria família vem antes, na ordem dos deveres, do serviço que a gente escolheu assumir.

Vale o mesmo para os pais idosos que ficam esperando um cuidado que nunca chega, porque andamos "ocupados na obra". E vale para o trabalho feito de qualquer jeito enquanto a agenda transborda de compromissos religiosos. O teste continua sendo o de Samuel: esta atividade religiosa está me levando a obedecer mais a Deus em todas as áreas, ou está me servindo de escape para uma obediência mais difícil?


Um cuidado necessário

Também é preciso dizer, com essa mesma clareza, o que esse princípio não é. Ele não é permissão para a preguiça espiritual disfarçada de "equilíbrio". A acomodação, aquela que se instala e passa a chamar o próprio comodismo de sabedoria, acharia aqui a desculpa perfeita, se a gente lesse o texto torto.

Deus nos manda fazer parte de uma comunidade e ser membros comprometidos com ela. Não fomos feitos para uma fé solitária, e largar a congregação não é obediência mais alta coisa nenhuma. É desobediência de outro tipo:

"Não deixemos de reunir-nos como igreja, segundo o costume de alguns, mas procuremos encorajar-nos uns aos outros, ainda mais quando vocês vêem que se aproxima o Dia." (Hebreus 10.25, NVI)

Por isso convém separar bem duas coisas. Uma delas é o serviço que a gente escolhe assumir, como escalas, projetos e funções, que é bom mas não é obrigatório na mesma medida. A outra é o culto público, do qual somos chamados a nunca faltar. Faltar a uma reunião de trabalho da igreja para socorrer o casamento é uma coisa; abandonar a comunhão dos santos é outra bem diferente.

O erro nunca esteve no serviço em si mesmo. Esteve em usá-lo como desculpa para quebrar um mandamento claro. A vida na igreja, em vez de nos empurrar para a desobediência e o pecado nas outras áreas, tem que nos levar a viver de forma mais santa em todas elas. A mesma graça que me torna fiel no culto me torna fiel também em casa, no trabalho e diante dos que dependem de mim. Quando a fidelidade numa área produz infidelidade em outra, aquilo já deixou de ser fidelidade. É o velho engano de Saul com roupa nova.


A obediência que salvou o mundo

Ainda falta a pergunta mais difícil de todas. E quando a gente falha? Porque falhar, a gente falha. Todos nós, de um jeito ou de outro, já oferecemos a Deus o sacrifício da atividade no lugar da obediência do coração. Se a régua pela qual vamos ser julgados é uma obediência perfeita em todas as áreas, então estamos perdidos.

É bem aqui que tudo o que a gente viu encontra descanso em Cristo. O autor de Hebreus coloca na boca de Jesus, no momento em que Ele entra no mundo, palavras que resumem a mensagem inteira:

"Por isso, quando Cristo veio ao mundo, disse: 'Sacrifício e oferta não quiseste, mas um corpo me preparaste; de holocaustos e ofertas pelo pecado não te agradaste. Então eu disse: Aqui estou, no livro está escrito a meu respeito; vim para fazer a tua vontade, ó Deus.'" (Hebreus 10.5–7, NVI)

Cristo é o único que obedeceu por completo, em toda área, sem nunca uma só vez usar a religião para fugir de um dever. E essa obediência dele foi muito mais do que exemplo: foi substituição. Ele obedeceu no lugar dos desobedientes e ofereceu a si mesmo, encerrando o sistema de sacrifícios ao entregar aquilo que Deus sempre quis, uma vida inteira rendida à vontade do Pai.

Por isso a obediência a que somos chamados nunca funciona como o preço da nossa aceitação; ela é o fruto dela. A gente não obedece para ser amado. Obedece porque, em Cristo, já é. E é essa segurança que nos liberta do teatro religioso. Quem já foi aceito pela obediência de um outro não precisa mais ficar fabricando sacrifícios para impressionar a Deus ou calar a própria consciência. Pode, enfim, fazer a coisa difícil e escondida, exatamente no lugar onde Deus mandou. Porque, a essa altura, aquilo deixou de ser medo. Virou adoração.

Misericórdia é o que Ele quer, e obediência é o que Ele pede. E as duas coisas Ele mesmo já nos deu, primeiro, no seu Filho.

Ariel Zimbrão

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